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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
16:38 10

Novas manifestações da classe média brasileira


A ampla difusão da TV por assinatura, o acesso à Internet, a baixa nos preços das passagens aéreas, o acesso a bens materiais de alta tecnologia e também ao ensino superior modificaram substancialmente o perfil da classe média alta brasileira. A turma tem ficado cada vez mais enjoadinha e tem compartilhado de manifestações de comportamento bem parecidas. Essa parada de globalização realmente tem o poder de padronizar as pessoas; e andando por aí, clicando por aqui, você pode encontrar alguns perfis de gente com atitudes e estilos muito semelhantes. Neste novo post resolvi reunir algumas dessas figurinhas que você facilmente pode encontrar por aí. 


Quase cidadania europeia

O brasileiro "cidadão europeu" está chateadíssimo com essa história de estar todo mundo viajando para o exterior agora. Há pouco mais de 10 anos viajar para o exterior era prerrogativa sua e de poucos. Agora toda essa ralé, sem sofisticação, com seus pacotes CVC podem usufruir daquilo que antes só ele podia conhecer. Sempre fazendo questão de esclarecer que não se encaixa na categoria "turista", porque a alcunha que lhes atribuí já diz, né? Ele é praticamente um cidadão europeu. Para essa pessoa, o tal do turista é uma figura repugnante. Turistar é coisa de povinho, com suas roupas de frio cafonas emprestadas pelo parente rico. Ele faz questão de mostrar que conhece profundamente todas as capitais e cidades glam europeias. Vai contar uma historinha, tem que inserir os nomes das ruas, ditas com o sotaque estrangeiro (francês, de preferência), para mostrar o quanto está inserido naquele lugar. Dão de vez em quando uma de Luciana Gimenes, e jogam expressões estrangeiras totalmente desnecessárias no meio das frases: "Gente, eu estava brincando! Foi apenas uma blague".

Pirei nas tecnologias

Este aqui é o desesperado por novas tecnologias. Passa o ano comendo mal, muquiranando para todas as coisas mais básicas da vida, mas tem seu Iphone de última geração e o tal do Macbook Air que equivale ao preço de pelo menos três notebooks razoáveis ("compensa, não trava"). O seu lugar é, claro, o paraíso do consumo, os Estados Unidos. Todo ano tem passagem obrigatória nos States. Caso contrário, é o mala que perturba viagens alheias, incomodando a tia da amiga da namorada, que ele soube que viaja em breve, fazendo as encomendas mais inconvenientes. Adora camisetas outdoors com o nome da marca famosa explícito, usa tênis esportivo chamativo caro para ir a qualquer lugar e tem o dedo podre pra escolher modelo de óculos e relógio. Este, de preferência o mais feio e grande da Michael Kors.

O/A VIP

No falecido Orkut este estaria em comunidades como "Sua inveja faz a minha fama", ou, "Deus me disse: desce e arrasa". Sua autoestima baixa e espírito invejoso é compensada na busca por provocar nos outros o mesmo sentimento. Por isso, seu objetivo é mostrar que é melhor que todo mundo, e que tem uma vida também muito mais bacana e divertida. Assim, é o cara que "não se mistura" e só vai para festas "selecionadas" ou com espaços selecionados. Não pode deixar de registrar tudo amplamente nas redes sociais, e se puder pôr também em alguma coluna social, melhor ainda. Como quem procura, acha, são pessoas que vivem reclamando de sofrer de inveja dos amigos ou amigas. Um sofrimento talvez um tanto gostoso de se sentir... Ah, e os homens dessa categoria costumam acusar todas as mulheres de serem interesseiras. Também, né, amigo, quando o único valor que você demonstra é o dinheiro, não há como atrair gente diferente.


Fotógrafo/a e fashionista



Com a disseminação das redes sociais, todo mundo tem seu espaço para ditar tendência. O fotolog foi responsável pelo boom da fotografia no Brasil, e até hoje essa mania se perpetua no Flickr e no Instagram. Muita gente acabou fazendo fama com fotografias lindas e conceituais. Só que a coisa foi se pasteurizando, e já dá pra encontrar um padrão nessa galera. Principalmente, entre as garotas. Antes de fazer o blog, prestei mais atenção no que faziam as blogueiras bem sucedidas, e observei que boa parte delas apresentavam características semelhantes (vou até imitar depois, pra ver se dá sorte). Um blog de sucesso tem que ter, claro, fotos, muitas fotos (tô pecando nisso). E algumas que você pode ver pelo menos em um em cada três blogs são: fotos com gato preto; fotos com frutas vermelhas como amora, cereja e morango; fotos mostrando a cor do esmalte; fotos na Starbucks. Livro favorito: "Alice no país das maravilhas". Filme: "O fabuloso destino de Amélie Poulain" ou "500 dias com ela". Um lugar: Paris, Londres ou Nova Iorque. Ícone da moda: Audrey Hepburn, em "Bonequinha de Luxo". O que não pode faltar na bolsa: batom da Mac.

Esqueci de mais algum? Pode acrescentar nos comentários. :)


























segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
13:56 3

Gula: um pecado subestimado

As leis cristãs nos ensinam que existem sete pecados capitais: a gula, a avareza, a luxúria, a ira, a inveja, a preguiça e a vaidade (ou orgulho). A vida já me ensinou que não existe um que possa ser tão pior que o outro. Quaisquer deles em grandes proporções podem trazer resultados trágicos.

"Qual é o seu pecado?", alguém da mesa pergunta. A resposta é quase sempre a mesma. A inveja é negada por todos. A luxúria e a ira geralmente são evocadas pelos homens que querem parecer mais machos; a vaidade ou orgulho, pela galera da alta autoestima excessiva. Enquanto a gula e a preguiça são os pecados mais admitidos e socialmente aceitos.

Aí eu digo que meu grande pecado é a gula. Alguém sustenta um "não valeu". Porque há quem ache que simplesmente ter fome e ter vontade de comer já configura o pecado. Sempre tem uma magrelita que se diz gulosa. Você faz o teste da pizza e a danadinha come duas ou três fatias, e já se diz satisfeita. Faz-me rir! Vou dizer pra você o que é uma pessoa gulosa.

Uma pessoa gulosa não consegue respeitar tira-gostos. Se você tem intimidade com o grupo, já senta do lado do patê e da torrada e vai metendo bala. Se não tem intimidade, tudo que está ao seu redor perde o interesse. Você não se concentra mais nas pessoas e no que elas estão dizendo, você pensa apenas quantos segundos ou minutos tem que aguardar para pegar o próximo salgadinho sem parecer uma desesperada. A conversa começa a perder o ritmo. E a coisa só fica pior quando você percebe que existe outra pessoa gulosa na roda. Começa um confronto silencioso, "pqp, esse safado tá comendo muito rápido, vai acabar tudo". Aí você apressa o passo, tentando não perder a elegância, que esse escroto não tem pudor algum em perder. 

Dividir comida também é um problema. Peraí, deixa eu explicar. O egoísmo não chega a tanto! No meu caso, não tenho problema em dividir a comida que está dentro de uma panela, e cada um pôr no seu pratinho o que tem vontade de comer. O problema é quando você faz o seu prato com uma quantidade mediana de comida, cria a expectativa de comer tudo que ali está, e vem algum folgado roubar o que há de melhor no recipiente. Situação pior: quando você guarda, por exemplo, aquele sushi mais gostoso pro final, e vem uma pessoa cheia da intimidade dar uma roubadinha. Dá logo uma pontada no coração. A boca fica salivando com a expectativa da mordida perdida. 

E quando querem um pedaço de um bocadinho de comida, como uma trufa? A mordida extingue logo 40% da bolinha. Prejuízo para a trufa e para o bolso. Pague logo metade dessa danada, camarada! 

O momento da divisão em fatias de alguma comida também é um conflito. Se você tem irmãos selvagens, pior ainda. A partilha de uma pequena torta ou de uma pizza, pode gerar grandes discussões. "Ei, o seu pedaço tá bem maior que o meu!". 

É feio, muito feio. Pecadinho egoísta pra caramba. Juro que estou tentando me tratar, pra me transformar apenas numa comiloninha, e não numa gulosa.

Por outro lado, os pecados também têm o seu caráter transgressor; e mais uma vez a questão de gênero aparece. Ser uma mulher comilona também é ser passível de julgamentos machistas. Um homem comilão demonstra sua virilidade, voracidade, quase um reflexo que é comedor em outro níveis. Ele é um selvagem, um homem das cavernas. Precisa comer muito, para fazer todas aquelas atividades que exigem do seu físico de macho (eu digo: RUM, até parece, trabalhadorzão!). Já as mulheres têm que comer pouco, para deixar comida suficiente para o seu macho ou para a prole. Devem demonstrar também que é alguém que não dá muitas despesas, e claro, não vai engordar muito.

É assim que o patriarcado interfere até no seu apetite! Tá de brincadeira, né? É por isso que não só se revoluciona na luxúria, há revolução na gula também!

Então, não subestime a gula no seu poder de destruição social; nem no de revolução. Pode pegar o pote de Nutella e detonar, amiga. Só não esqueça de deixar umas colherzinhas pra turma. 





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
11:14 6

“Não ande com brasileiros”


Em 2008, resolvi me aventurar num intercâmbio na Europa. A cidade escolhida: Lyon, França.

Antes de embarcar, além de todos os preparativos formais, todas as coisinhas para listar e não esquecer de pôr na mala; várias pessoas vieram me fornecer algumas sugestões, solicitadas e não solicitadas. O que vestir, o que não levar na mala, o que comprar aqui, o que comprar lá, alerta para o mau humor francês, etc, etc.

Sem dúvida, um ponto em comum entre as diversas recomendações era o tal de “não ande com brasileiros”. Era a sugestão dada geralmente por quem nunca tinha tido a experiência de fazer um intercâmbio, mas que conhecia alguém que tinha ido e que tinha feito a grande bobagem de interagir demasiadamente com brasileiros.

É uma preocupação compreensível, e por isso muita gente viaja com isso na cabeça. Fazer intercâmbio é o momento de você conhecer uma cultura totalmente diferente da sua, você precisa praticar o idioma estrangeiro e se tornar fluente, precisa se inserir no cotidiano daquele contexto. Enfim, são coisas que o convívio com pessoas da mesma nacionalidade podem interferir para uma inserção mais profunda.

Cheguei lá, com um grupo de brasileiros da mesma Universidade, e pensei que até seria bom me distanciar um pouco deles quando estivesse totalmente estabelecida. Só que além destes, dezenas de outros brasileiros de outros estados e regiões também estavam chegando por lá. E aí, não teve mais jeito, passei a conviver com todos, e fui totalmente conquistada.

Não me culpem, os brasileiros e as brasileiras são irresistíveis. E digo o porquê.

Porque no meio daquela calmaria francesa, quem rompia o silêncio com gargalhadas gostosas e altas, só podia ser o povo do Brasil. Aliás, percebemos que somos bons nisso de dar risadas. E que somos um tanto escandalosos também, porque vez ou outra tinha quem viesse reclamar do barulho.

Começou a nevar. Com quem partilhar tamanha emoção? Com os amigos brasileiros, claro. Deitada na minha caminha, bem displicente, recebi um monte de mensagens: "Mariana, olha a janela!", ou, "Neveeeee!!!". Depois quando perdia a graça tanto branco e tanto frio, também sentávamos e nos lamentávamos com saudade do sol.

Se não andasse com brasileiros, eu iria perder a oportunidade de falar várias atrocidades em português na cara de algum francês chato, ou até elogiar descaradamente um francês gatinho sentado no assento da frente no metrô. E ainda fazendo a atriz, com expressão de quem estava falando sobre o tempo.

E mais, como poderia resistir a três estudantes de moda do Ceará, com aquele sotaquinho de Fortaleza, meio Norte, meio Nordeste, e assim... como posso dizer pra "tchi"... alegres, coloridas e criativas. Dava logo vontade de dizer, "vamos ser amigas?".

Que graça teria se não tivesse os cariocas chamando atenção na pista de dança, com seu estilo de dançar único, desafiando minha falta de remelexo no quadril e deixando as francesinhas (e outras gringas) enlouquecidas? Como eu teria contato direto com fofocas sobre artistas globais e outras celebridades, verificadas in loco!? Babados fortíssimos e exclusivos.

E os paulistas? Tive oportunidade de conhecer uma variedade de sotaques que passa pelos VJs da MTV, vai pra comunidade italiana e termina no linguajar dos manos. Uma puta vida difícil que eles levavam na capital paulista; três horas ou mais pra pegar a "condução" pra chegar no "trampo" ou na "fefelesh" (FFLCH). Sempre gargalhando na cara de quem precisava acordar "cedo" no outro dia, porque cedo não é 7 ou 8 horas da manhã; um verdadeiro metropolitano só reclama quando tem que levantar pelo menos às 4 horas!

Não poderia deixar de falar dos vizinhos pernambucanos. De vez em quando tratavam nós paraibanos como um irmão mais velho pentelhando o caçula. Enchiam o saco dizendo que éramos pequenos e inaptos, mas no fundo nos amavam e se identificavam conosco. Coisa mais linda aquele povo do Recife, com suas camisas do Sport, do Náutico e do Santa Cruz. Maior orgulho do mundo de onde vieram, e com razão. Sempre fazíamos uma união pró-Nordeste, pra desafiar o novo amiguinho que queria rir do nosso sotaque. No final, já estávamos pelo menos a contagiar os artigos antes de nomes próprios, e tinha quem chegasse a soltar um "oxe".

Sem falar nas pessoas de outros lugares do país: as sulistas lindas e bacanas, com suas expressões diferentes; os mineiros gentis com o sotaque mais fofinho do mundo; fora, claro, meus queridíssimos conterrâneos, que foram verdadeiros brothers and sisters.

Aí foi isso, fui conhecer o estrangeiro, e acabei também conhecendo o Brasil. Não, não, não montei nenhuma comunidade brasileira, nem fiz parte de um gueto. Aprendi francês, comi escargot, aderi à rabugentice para momentos adequados. Agora o melhor de tudo: fiz muitos amigos. Da França, do mundo todo...  porém, não vou mentir, os mais especiais moram aqui do lado e têm o lugar mais especial no meu coração.








terça-feira, 28 de janeiro de 2014
06:41 9

Os vinte e muitos anos - mais uma história de crise

Outro dia acordei pela manhã, dei aquela lavadinha no rosto com meu sabonete anti-acne, e depois de uma observação mais atenta ao espelho, percebi que estava não só com um, mas com quatro fios de cabelo branco na minha franjinha juvenil.

Com um misto de surpresa e insatisfação com esse sinal do tempo, prontamente providenciei de arrancá-los todos.

É... não tenho aceitado com muita leveza esta nova fase da vida. 

No fundo, sinto que sou a mesma pessoa de 10 ou 15 anos atrás, e aquela maturidade que imaginava que teria aos vinte e muitos não chegou naquele ponto que eu esperava. Apesar de muitas opiniões mudarem da adolescência para a vida adulta, continuo tendo medo de espíritos e outros seres desconhecidos quando ando no escuro à noite; durmo do ladinho da minha mãe de vez em quando; e ainda não me acostumei com homens de mais de 40 anos dando em cima de mim sem considerá-los pedófilos (me achando a própria pré-adolescente ainda...).

Os vinte e muitos anos na verdade têm sido um período meio limbo pra mim. Quando você começa a se dar conta que existem algumas fases da vida e que você tem que se preparar para cada uma delas, esta dos vinte e muitos anos meio que me passou batida pelos referenciais que eu tinha. Acho que imaginei um pouco a geração dos meus pais, que depois de terminar a faculdade, rapidamente já se encontrava um trabalho, já se casava e tinha filhos. 

Daí, qual é a situação que você se depara depois de se formar? Encontrar um emprego decente é uma tarefa árdua pra caramba. Você tem que optar entre um emprego escravo no mercado privado, ou, pelo serviço público, que você tem de abdicar de diversas coisas pra ter tempo de estudar para um concurso, e decorar todos aqueles prazos idiotas e pegadinhas escrotas. 

Se casar e, principalmente, ter filhos também não faz parte do plano - porque você quer ter um sono tranquilo pelo menos até a idade de Cristo -, você se pergunta: afinal, em que consiste esta maldita fase dos vinte e muitos anos?

É ridículo, mas fiquei meio animada depois que percebi que em Friends e em How I Met Your Mother, as primeiras temporadas iniciam com seus personagens nesse período da vida, e são seriados divertidos que contaram muitas histórias e duraram bastante. Só que de alguma forma a galera tem dinheiro para ter apartamentos legais, espaçosos e bem localizados. Enquanto no seu primeiro empreguinho dos vinte e muitos, só dá pra alugar um apartamentinho furreca - isso, claro, se você não trabalhou que nem um escravo no ramo privado, ou se não estudou que nem um condenado por pelo menos uns dois anos pra entrar no alto escalão do serviço público. 

Se dizem que a adolescência é a fase da auto-afirmação, eu discordo e digo que esta é a verdadeira fase da auto-afirmação. É uma pressão enorme para você mostrar o seu valor, porque sente que é o momento de colocar a sua marca no mundo, fazer algo importante, contribuir para algo de grande impacto para a vida de algumas ou muitas pessoas. É o momento de você mostrar quem você é e o que pode oferecer. E é tão desgastante às vezes, porque esse tipo de coisa não vem de uma hora pra outra. 

Decidi, então, que vou arrancar meus cabelos brancos enquanto puder, e continuarei a usar o meu All Star de vez em quando, porque não dá assim pra envelhecer de uma hora pra outra. Tem gente que já incorpora o espírito: faz aquelas luzes no cabelo que envelhecem 15 anos, coloca um salto alto de oncinha e chama todo mundo de "meu amor". Evito esse tipo de aceitação ainda. No entanto, caminho por esse começo da vida adulta, fazendo mudanças aos poucos, porém qualitativas. Agora sem desanimar e cair no chocolate e no seriado de zumbis. Um dia eu chego lá, aproveitando cada pedacinho da vida, e o que ela tem a oferecer. E lembrarei desta fase com carinho, porque vai ser o momento que saí do meu conforto de menininha de classe média para realizar algo só meu. E se for mais tarde, Sex and The City tinha protagonistas com mais de 30 anos, dá pra bombar e encarar altas aventuras depois disso também. Caso contrário, ainda vão criar algum seriado legal pra depois dos 40 ou 50 pra gente se espelhar. 

PS: A vida não é como um seriado de comédia, eu sei. Mas eles fazem a gente sonhar. Deixa eu sonhaaar! 










terça-feira, 21 de janeiro de 2014
17:52 3

É tudo verdade: documentários interessantes


Os documentários sempre nos dão a oportunidade de conhecer histórias reais e surpreendentes. É um dos meus gêneros favoritos. Este post tem sugestões de alguns dos que mais me chamaram atenção nos últimos tempos. 

Procurando Sugar Man (Searching for Sugar Man, 2012)

Um músico americano, descendente de imigrantes latinos, chamado Sixto Rodriguez grava dois álbuns no início dos anos 1970 com a promessa de virar um grande nome da música. Os produtores na época estavam muito entusiasmados com o seu talento, e acreditavam fortemente no seu sucesso. As letras tinham enorme qualidade, comparáveis às de Bob Dylan; a voz dele era muito bonita e tocante. Só que... não bombou. Os álbuns foram um grande fracasso nos Estados Unidos.

Rodriguez, então, retoma sua vida como trabalhador da construção civil e passa anos como um cidadão comum. Enquanto isso, misteriosamente um dos seus discos foi parar na África do Sul, e virou uma verdadeira febre entre os afrikaners desfavoráveis ao apartheid. Seu sucesso lá era comparável ao dos Beatles ou ao dos Rolling Stones. Só que ninguém sabia nada sobre Rodriguez. Vários mitos foram criados sobre seu paradeiro e também sua morte. 20 anos depois, dois sul-africanos encararam a empreitada de descobrir o que aconteceu com esse homem. A história é linda, surpreendente e ainda ganhou o oscar de 2013.

Jonestown: Vida e Morte no Templo do Povo (Jonestown: The Life and Death of Peoples Temple, 2006)

Alerta máximo antes de assistir a esse filme! O negócio é de um baixíssimo astral. Vai sugar suas energias e você vai ficar sem dormir, andando de olho arregalado por uns três dias. Só sosseguei quando todo mundo aqui de casa assistiu, e a gente pôde compartilhar essa negatividade juntos.

Esse documentário conta como aconteceu o massacre de Jonestown. Se você nunca ouviu falar disso, tratou-se do maior suicídio coletivo da história, com mais de 900 mortos. 

Tim Jones era o líder de uma seita religiosa que começou nos Estados Unidos. A ideia do cara era bem interessante: fazer uma igreja que aceitasse pessoas de todas as origens, idades e raças. Tinha uma proposta bem acolhedora, seus cultos eram animados e por isso, acabou conquistando milhares de fiéis. Só que o líder Tim Jones era um piradão, manipulador, megalomaníaco; tinha prazer em dominar as pessoas, e muitas coisas estranhas aconteciam nos bastidores desse grupo. 

Até que começaram a denunciar algumas condutas do líder e do grupo, e Tim Jones teve a ideia de construir uma comunidade isolada, só com os adeptos da sua religião, na Guiana. A cidade se chamaria Jonestown, o local da fatídica baixastralidade. 

O filme mostra a vida de Tim Jones, como a seita surgiu e se desenvolveu, até o dia do suicídio coletivo. Tem depoimentos com antigos fiéis e sobreviventes do massacre em Jonestown (que não chegam a uma dezena), é muito rico em imagens da época e tem áudios do dia do evento (me-do). O filme é muito bom, muito bem feito, e é muito interessante pra gente se dar conta do poder do carisma de um líder, a ponto de dar no que deu. 

O documentário pode ser visto no Youtube, com legendas em português. Eu não vou colar o link aqui, pra não infectar meu blog de energias negativas. 


Miss Representation (Miss Representation, 2011)

Se você é daquelas pessoas que acredita que o feminismo já não serve pra nada, porque as mulheres já alcançaram a igualdade que almejavam, assista a esse filme e mude de ideia. Se você é feminista, e ainda não assistiu, veja e fique mais revoltada. O filme mostra as representações das mulheres na mídia, e como elas são expostas (e avaliadas) nas artes e na política. Denuncia a perpetuação de estereótipos, a falta de respeito nos espaços públicos, o culto ao corpo e à juventude feminina. Peguei a dica no blog de Lola (ídola) há um tempo, e repasso por aqui. 


sexta-feira, 17 de janeiro de 2014
06:45 9

Seria o humor incompatível com as mulheres?

Não é preciso muito esforço pra perceber que não existem muitas mulheres no mundo da comédia, e há quem diga que encontrar uma mulher engraçada no convívio diário é uma tarefa difícil. Mulheres comediantes sempre são vistas com certa desconfiança ou, pelo contrário, até com muito entusiasmo, porque realmente não é algo tão comum. Nos últimos anos, algumas atrizes divertidas vêm despontando nesse meio, mas ainda são muito poucas. Por que será? Seria o humor uma questão de gênero? 

Outra vez, vi uma entrevista com uma antropóloga chamada Mirian Goldenberg, que na época lançava um livro fruto de uma pesquisa que investigava diferenças entre homens e mulheres. Goldenberg mostrava que a maioria dos homens se divertiam mais com outros homens, e que as mulheres também se divertiam mais com pessoas do sexo masculino. Na lista de pessoas mais divertidas para as mulheres, as suas amigas ostentavam um papel totalmente secundário na hora de dar umas risadas. Amigos homens, maridos, namorados e outros ficavam na frente das suas parceiras. Para os homens, o quadro era parecido. Pessoas do sexo feminino especialmente não costumavam diverti-los. 

Lembrei de algumas vezes que participei de conversas de bar com uma mesa predominantemente masculina (e mais machistinha) e percebi que, para determinados grupos, as mulheres não passam de meros adereços, acessórios. Sabe aquela história, "vamos pegar umas cervejas e umas mulheres"? Como se cervejas e mulheres fizessem parte de categorias análogas. Então. Nesses grupos, elas mal participavam da conversa, raramente introduziam algum assunto. Os homens riam e se divertiam horrores, eram sempre os protagonistas das histórias; e as mulheres apenas acompanhavam aquilo tudo. Será que não há o que falar? As mulheres são tão sem senso de humor assim? 

Duvido muito que isso seja uma questão cromossomial. Uma resposta óbvia, e eu não estou inventando a roda aqui, é que desde muito pequenas somos preparadas para sermos mulheres atraentes, para conquistar, claro, um bom relacionamento e consequentemente um bom casamento. Para isso, você tem que ser linda, meiga, reservada, recatada, limpinha, falar e rir baixinho como uma princesa, e ainda ser sexy. Ai, meu irmão e minha irmã, não há quem possa ser engraçada para alcançar todas essas supostas qualidades. Para parecer uma futura boa esposa, não dá pra rir de si mesma.

É complicado relaxar pra falar alguma coisa quando desde cedo vários assuntos lhe são censurados para você alcançar o paradigma da mulher ideal. Falar de situações engraçadas que envolvam algum constrangimento quase sempre são mal interpretados. Escatologia, então? Proibido. Onde já se viu uma mulher falando sobre coisas nojentas? É uma verdadeira luta diária que as mulheres enfrentam para parecerem isentas do universo da excreção. Isso faz, inclusive, que elas sofram muito mais de prisão de ventre. Não é à toa que o Activia captou logo quem seria o seu nicho. Aí pronto, falar sobre o assunto nem pensar. Contar alguma história engraçada sobre dor de barriga, por exemplo, que é um assunto que rende histórias engraçadas, não pode entrar na roda, porque aí você está expondo para todo mundo que faz number two. E isso é segredo, secretíssimo. 

Há alguns anos vi um programa da MTV, aquele com Marina Person, que se chamava Meninas Veneno, onde um grupo de mulheres falava sobre um tema predeterminado; e num desses episódios surgiu o assunto depilação. Marina Person, mais espontânea, falou daqueles dias que a gente deixa uns pelinhos mais crescidos, que dá aquela preguicinha normal de se depilar e tal. Jogou o tema pra dar um toque de humor e pra buscar a identificação das outras participantes. Como o assunto do dia tinha reunido umas mulheres mais frescas, essas moças que ali estavam negaram a possibilidade de existir um dia sequer em que não estivessem depiladas. Como assim, né? Peraí, minhas amigas. Até pra se depilar você tem que estar peluda. Que história é essa? Claro, minha gente, tinham que manter a magia do filme pornô da mulher totalmente lisinha, porque aí, adeus, pretendentes! 

É até meio confuso. Castidade, "pureza", atriz de filme pornô. Complicado... mas dizem que mulher tem que ser tudo isso ao mesmo tempo. E ao mesmo tempo não ser. Vigi! É assim mesmo. Não há saída. 

Claro, o humor não se resume a questões de higiene pessoal e tal. Não dá pra rolar uma boa stand-up comedy se resumindo a esses assuntos. O problema é que pra ser engraçado ou engraçada, em muitos casos, precisa-se de um certo desapego à vaidade e ao senso de ridículo, que às mulheres por muito tempo não foi permitido.E por isso, o apelo deste texto é esse. Desapeguemos um pouco dessa vaidade, meninas. Vamos liberar a comediante que existe dentro de nós. Mais leveza, mais diversão. Teste para 2014: próximo bloco Cafuçu pintar um dentinho e uma monocelha. Haha. Pedi muito, né? Mas vocês entenderam... :)

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014
07:47 2

Trivial, porém especial

Depois de passar tantas horas da minha vida comendo e comendo, mais do que todas as outras pessoas ao meu redor, era normal que eu desenvolvesse algum abusinho em relação ao que se tem de mais trivial e bem reputado no universo da culinária.

Assim como pode acontecer com tudo, com boys magia, com a música (Wonderwall – Oasis), com o cinema (Titanic), acontece com a comida.

Sou daquelas que fica verdadeiramente irritada quando tenho que pedir comida para uma quantidade grande de pessoas, e sempre, sempre vem aquele amigo com mais frescura e temente a inovações, que come arroz com ovo no almoço desde 1990, e vai num restaurante italiano, “pizza calabresa!”, vai num restaurante chinês, “frango xadrez!”, vai comprar um pote de sorvete, “creme!”. E você é obrigado a comer aquilo que já foi especial pra você um dia, mas que queria deixar no passado, pois seu sabor e odor já estão guardados para sempre.

No entanto, algumas vezes fui rendida pelo comum, depois de ceder aos pedidos do coletivo da minha mesa, ou depois de dar aquela provadinha na comida alheia. Este post tratará sobre esses pratos surpreendentes, que tinham tudo para ser só mais um desses que você encontra em qualquer lugar, mas que tinham um quê a mais que os tornavam muito melhores do que todos os outros.

Na minha humilde opinião, eis alguns pratos triviais, porém especiais (os preços estão aproximados, mas quando puder vou colocando o valor exato por aqui) :

Rubacão com carne de sol do Café São Jorge 

Para quem não é dessas bandas de cá, pode não ser comum, mas quem vive por aqui sabe que o rubacão é um dos pratos mais comuns da culinária nordestina. Lembro que da primeira vez que provei, fiquei encantada. Comia horrores, até pesar bem na barriga. Daí claro, com o tempo, ele foi perdendo sua magia. Alguns restaurantes também o desonraram colocando mais ingredientes do que ele já deveria ter. Até que fui ao Café São Jorge, e tive a oportunidade de provar o mais maravilhoso rubacão de todos os tempos. Com a quantidade de ingredientes certa, uma cremosidade maravilhosa, e um toque todo especial com uns pedacinhos de alho tostados e umas sementes de gergelim (suponho que seja gergelim), que dão uma textura super interessante ao prato. E claro, a carne de sol maravilhosa super bem preparada, desfiadinha. Custa, se não me engano, 18 reais. 


Pizza de Frango com Catupiry do Divina Itália

Lembro quando era pré-adolescente e ouvi falar pela primeira vez do tal do queijo Catupiry. Ele era descrito com muito entusiasmo pelos jovens mais antenados e viajantes que o conheciam antes de mim. Depois que provei a mistura de pizza de frango com catupiry, foram anos dependente desse sabor. Não havia dificuldade para escolher nos restaurantes, nas entregas em domicílio. Porém, como tudo que a gente come demais, pode acabar tendo o triste fim do enjoo; rejeitei o sabor em boa parte da última década.

Até que fui rendida pelo meu namoradinho (que gosta até hoje de sorvete de morango) a provar a pizza de frango com catupiry do Divina, que ele acabava de ter provado e elogiado horrores. Eu que tinha esnobado na minha mente a sua escolha, e estava satisfeita comendo minha pizza de pesto, resolvi conferi. E ele tinha razão, era a melhor pizza de frango com catupiry de toda a João Pessoa!

Claro que isso vai depender do seu gosto pra pizza, como combinamos no fato de gostar da massa bem fininha e crocante, se for também o seu caso, essa pizza parece a ideal. Tem o defeito enorme, de ser apenas uma pizza individual (esses restaurantes mais arrumadinhos rejeitam de todas as formas pratos pra mais de três pessoas, whyyy?). No entanto, tem a qualidade de ser um dos pratos mais baratos do cardápio, que no geral não é muito Brasil não – saudade, Peixe Urbano –, custa cerca de 25 reais.


American Cheeseburguer do Blue 

O Blue é um restaurante que maltrata muito o meu saldo bancário no fim do mês. Como boa parte de tudo que é bom neste mundo capitalista selvagem, é um restaurante de pratos maravilhosos, porém que pesam bastante no bolso. Mas também, se eles fizerem cuzcuz com ovo, vai ficar incrível, sofisticado e ter um toque de alguma coisa que o deixa melhor do que em qualquer outro lugar. No entanto, o que assusta mesmo são os preços dos pratos principais. As entradas e as sobremesas têm um preço que dá pra pagar; e você vai gostar desta dica, porque ela está inclusa no rol das entradas. Não sei realmente como a gente encaixa um prato como entrada e outro como prato principal, sei que esse te alimenta como um prato principal muito bem. E tem um sabor incrível. O hamburguer é bem gordinho, com carne de verdade (indireta pro Mcdonald's), super suculento, e acompanha fritas e molhinho gostoso. Custa 20 e poucos reais.

Torta de frango da La Suissa (Campina Grande) 

Pessoenses despeitados diriam que as 14 melhores coisas de Campina Grande são o Treze e a saída para João Pessoa. Um pessoense um pouco menos despeitado diria que as 14 melhores coisas de Campina são o Treze e a La Suissa. Se algum campinense estiver lendo, não tem nem graça essa sugestão aqui. A torta de frango da La Suissa já está incorporada ao povo campinense há pelo menos uns 15, 20 anos. A massa mais incrível, fininha, sedosa; o recheio mais maravilhoso. A La Suissa é sempre parada obrigatória quando vou por lá só pra saborear essa delícia.


Endereços:

Café São Jorge: Rua Conselheiro Henriques, Casarão 90, Centro.
Divina Itália: Rua Targino Marques. 56, Tambaú.
Blue: Av. Presidente Epitácio Pessoa, 1851, Hotel Village.
La Suissa: Rua Irineu Joffily, 176, Centro e Shopping Boulevard - Campina Grande

Fotos:

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