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quarta-feira, 21 de maio de 2014
08:05 3

Arbitrariedades

Depois que você viu que não deu pra fazer fama antes dos 25 anos, não fez sucesso no mundo artístico, esportivo, intelectual ou corporativo, ou sequer sabe ainda em qual desses mundos você gostaria estar, chega um dia que você tem que traçar um plano. Não dá mais para participar das Olimpíadas, e a chance de ser um Mark Zuckerberg, um Álvares de Azevedo, uma Spice Girl passou e você tem que se inspirar nas pessoas do mundo real que conquistam as coisas mais tarde mesmo.

Meu plano tardio: seguir carreira acadêmica.

Os primeiros passos foram dados, mas tem que ter perseverança pra não desistir diante dos primeiros percalços. Estou me referindo mais precisamente às críticas e resultados negativos que são inerentes a qualquer pessoa que se dispõe a meter a cara no mundo 

Minha trágica história: Fiz um artigo que achei bacanérrimo. Achei que era um dos melhores que tinha feito. Fazia parte de uma disciplina do mestrado, e acabei o aproveitando para tentar publicação em algum congresso legal ou numa revista bem qualificada. Mandei o danadinho do artigo pra ser avaliado num congresso. Depois de esperar uns meses pela aprovação, vi que ele não tava na lista dos aprovados para apresentação e publicação. Recebi uma nota mediana, acima da média - vale frisar -,  mas não foi suficiente para entrar dentro do número máximo de pessoas permitido por grupo de trabalho.

Eu tinha a impressão que todo mundo tinha artigo aprovado nessas paradas facilmente, então eu era a derrotada, a ignorante, que não tinha capacidade sequer para participar de um Congresso que aparentemente todo mundo conseguia aprovação. Incorporei logo o "Marrie, A Estranha", e pensei ser execrada pela sociedade, ovos sendo atirados, restos mortais de animais sendo jogados sobre a minha cabeça, e alguém com uma faixa bem grande dizendo: "Este lugar não é para você". 

Drama, drama, eu sei. Porém, onde estou querendo chegar?

Terminando o drama: Duvidei das minhas capacidades, pensei por uns instantes em voltar a estudar pra concurso e seguir uma carreira nada a ver. Até que tive uma lição de vida com um programa de TV - as lições de vida podem sair de pessoas e situações que você nunca imaginaria. Foi quando uma cantora bem arrasante começou a cantar lindamente no The Voice Brasil (ok, ha-ha), e ninguém virou a cadeira.

Como assim ninguém virou a cadeira para um talento que para mim era inquestionável? E as coisas começaram a ficar mais claras. Comecei a pensar em todas as vezes que vi gente talentosíssima em várias áreas da vida terem avaliações completamente injustas ou questionáveis. E percebi como muitas vezes a avaliação de terceiros em relação a um determinado talento, ideia ou personalidade pode ser completamente arbitrária.

Quando utilizados critérios subjetivos, a coisa é particularmente escandalosa. Soube que um dos professores mais fantásticos que tive na faculdade, em termos de conhecimento, carisma e didática, foi fazer um concurso para ser professor de um outro lugar e foi justamente reprovado no que achava ser o seu maior ponto forte, na prova de didática! Quem diabos iria imaginar que algum avaliador fosse reprová-lo justamente naquilo que eu e outros alunos achavam mais especial nesse professor? Que critérios a pessoa que o reprovou usou?  

Veja bem: eu mesma, nem acho os filmes de Woody Allen engraçados. Acho a voz de Maria Gadu irritante. Não consegui terminar o segundo livro do Senhor dos Anéis porque achei chato. Perdi o tesão por Johnny Depp depois que ele fez "A fantástica fábrica de chocolates". Imagina aí se essas pessoas e obras tivessem que depender de mim para conseguir alguma coisa!

Até em critérios considerados objetivos as coisas podem ser bem escrotinhas. Quantas pessoas inteligentíssimas, desenroladas, especiais, capazes que eu conheço estão penando amargamente para passar em concurso e ainda não conseguiram? Quem faz concurso sabe que não basta ter estudado; o aspecto sorte conta muitíssimo. Cai justamente aquele assunto que você não estudou, e uma pessoa que talvez tenha acumulado muito menos conteúdo que você, teve a sorte de estudado justamente aquilo e desenrolou.

Às vezes ser bom não é o suficiente. O dia, o lugar, o momento, uma pessoa idiota podem acabar decidindo coisas importantes da sua vida, e muitas vezes você pode acabar se dando mal. No entanto, não deixe de acreditar em suas capacidades! Se você acredita que é bom e se esforça pra isso, o negócio é tentar, tentar e tentar. Sabe aquele artigo que falei? Acabei tirando 10,0 na disciplina e ele foi aceito numa revista científica conceituada, e ainda com elogios! Aquela galera do Congresso não sabia era de nada.




sexta-feira, 9 de maio de 2014
16:08 1

Constrangimentos do patriarcado

É bem verdade que os impactos do patriarcado divergem consideravelmente dependendo do lugar, da classe social e de outros fatores como raça, religião etc. No entanto, ainda que você viva no ambiente mais bacana, tolerante e respeitoso para o seu desenvolvimento pessoal, o mundo sempre faz questão de lhe mostrar que o espectro do patriarcado ainda ronda; e é constrangedor.

1. A rainha do lar

Não basta ser charmosa, culta, inteligente, estudante e profissional exemplar. Para mostrar o seu valor, e ganhar o título de "mulher completa", você ainda tem que mostrar que é uma cozinheira de mão cheia, tem que lavar pratos como se fosse uma das coisas mais gostosas do mundo, tem que varrer o chão com a maior desenvoltura e servir de garçonete nos eventos sociais enquanto os membros do sexo masculino jogam baralho e bebem whisky - ainda que você seja visita naquele evento, e eles estejam na própria casa.

Essa avaliação geralmente é feita por tios/tias, sogros/sogras, ou por gente amiga dos seus pais, que irão investigar se você teve uma boa "criação". No momento que você for fazer alguma tarefa doméstica, algumas olhadelas de avaliação serão jogadas para medir o seu estado de felicidade e boa vontade - para saber se você mostra que nasceu pra fazer aquilo mesmo, e é uma mulher solícita e maternal; e, agilidade e habilidade - tem que descascar um alho num piscar de olhos, varrer a casa que nem uma bailarina, cortar cebola com destreza e rapidez.

E parece que é nesses momentos de avaliação que dá um ziricutrico e você quebra um copo lavando a louça, erra no tempero da comida e derruba uma criança no chão. Aí, é o fim, minha gente, sua reputação de boa mulher irá por água abaixo.

Ou, ainda, caso você faça corpo mole para fazer alguma dessas atividades: caras de reprovação, rabissacas, "tsc tsc, essas mulheres de hoje em dia...". O seu irmãozinho, priminho ou coleguinha toma a mesma atitude, e "ah, não é coisa de homem mesmo".

Ia ser tão bacana se todo mundo pudesse ajudar nesses coisas chatas da vida, né? No entanto, se o chuveiro quebra, cadê o "homem da casa" pra consertar? Parece que os homens de hoje em dia não estão muito desenrolados pra resolver problemas em aparelhos eletrônicos, instalação elétrica, que nem aqueles homens de antigamente. O passado é passado para os homens; já as mulheres, além de terem que dar conta das atribuições do presente, também têm que manter os vínculos com o passado.

2. A casamenteira

Se você já está há algum tempo em um relacionamento, vão jurar que você já deve estar forçando a barra para engatar um casamento, mesmo que você não se importe com isso e viva recebendo declarações e propostas do seu companheiro. O casamento é visto como um ardil feminino, uma manipulação maquiavélica feita pelas mulheres que inebria os homens a ponto de fazer com que eles aceitem benevolentemente largar sua vida de liberdade e júbilo. Vão dizer na sua cara que você, pobre moça, deve estar muito infeliz, porque ainda não teve sua plenitude alcançada por meio do contrato de casamento. Vão, de brincadeirinha, solicitar ao seu companheiro que, num ato de compaixão em relação a tamanha vida miserável, resolva ensandecidamente abdicar de seus privilégios para dar sentido e satisfação à sua vida.

3. A interesseira

"Mulher não precisa estudar, basta encontrar um homem rico para casar". Bacana demais viver da riqueza dos outros, né? Incrível que gente desinteressante tem sempre essa teoria espertíssima e divertidíssima para soltar por aí. Falam que mulher só pensa em dinheiro. Bem, meu querido, se você não possui nenhuma destas características, tais como: beleza, charme, inteligência, bom papo, bom gosto, bom humor, bom caráter, infelizmente só o que lhe sobra é começar a ganhar dinheiro para atrair gente interesseira. Pessoas legais não têm interesse em gente tão desprovida. A dica é comprar o carro da moda, andar com roupas de marca caras (e que mostrem esse atributo para o público), frequentar lugares "VIPs" e a isca estará perfeita. 

4. A descartável

Quem nunca ouviu que mulher depois dos 25 anos "passa do ponto"? Infelizmente já tive oportunidade de escutar isso mais de uma vez. Ou, "se minha mulher não emagrecer logo depois de ter filho, eu a largarei". Já escutei essa também algumas vezes. Bacana saber que depois dos 25 anos, eu viro um lixo humano até o momento da minha morte.

Existe um ódio generalizado de mulheres gordas e/ou velhas. Basta lembrar o quanto Marília Gabriela foi esculachada na época que namorava com Reynaldo Gianecchini e como as pessoas têm uma implicância absurda, e sem um fundamento preciso, com Preta Gil. Ficando velha e/ou gorda, a gente tem que passar a vida se conformando às expectativas alheias, de ser mãe, mulher casada (com homem mais velho, claro), discreta e doce.

Solução para não ter estresse: morra, antes de envelhecer. Sugeriria os 27 anos, porque aí você se junta ao hall da fama, junto com Janis Joplin, Kurt Cobain e Amy Winehouse.







domingo, 13 de abril de 2014
06:00 0

E essa gente radical, hein?


Para quem achava que os debates ideológicos entre posicionamentos de direita e esquerda estavam ultrapassados, basta dar uma escorregadinha no feed de notícias do Facebook, ou ler os comentários de algum site de notícias, que perceberá que a promessa pós-moderna de fim das ideologias não está tão em voga assim. Há um conflito claro entre visões de mundo ocorrendo.

Nessa arena de confronto, há os que ficam em cima do muro, assistindo tudo com visão privilegiada, muitas vezes criticando os "radicalismos", os "extremismos", sobretudo das pessoas apaixonadas de esquerda. "Ingênuos/as!", "utópicos/as!", "malucos/as!" é o que dizem. 

Posso compreender as pessoas que ficam em cima do muro. Até porque, eu mesma, com 27 anos de América do Sul, ainda não elaborei bem, nem decidi o que pensar sobre diversas situações; são o que dizem ser essas crises da vida. Fica realmente difícil se entregar de corpo e alma assim. Por agir dessa forma também, permita-me confessar, ficar em cima do muro é confortável demais. 

Até agora, por exemplo, não me decidi se acredito em Deus ou não. Dentro de mim, eu penso que se morrer e nada acontecer, eu, no meio do nada, ainda que isso não seja possível, ria da cara de todas essas pessoas muito religiosas que abdicaram de várias coisas da vida, aparentemente inofensivas, em busca de uma grande iluminação pós-morte. Ao mesmo tempo, penso que se existir algo além-vida Deus ia ver que eu tava com uma perninha do outro lado do muro, teria compaixão de mim, computaria que eu tinha bom coração e me encaminharia para as nuvens de algodão.

Aí eu vivo assim, tranquila, achando que nada de mal vai acontecer comigo. Pois acontecendo uma coisa ou outra, eu tenho fé que vou sempre sair ganhando. 

Eu imagino que é assim que se sente os em-cima-do-muro-políticos. Tudo que acontecer de bom, que convém, atribui pra si; o que der errado, não lhe pertence. E aí, passa a vida apontando o dedo indicador, às vezes o maior de todos, na cara dos outros que tomaram alguma posição. Vida boa danada. Sem culpas, sem cair nunca em constrangimento, em contradição ou em qualquer outra situação difícil. 

No entanto, amigo, amiga, reflita um pouco e verifique que todas as grandes mudanças ocorridas no mundo, foram lideradas por pessoas audaciosas, que tomaram alguma posição, pessoas com várias dessas características que você diz ser própria de gente radical, louca, histérica.

Já dizia aquela publicidade da Apple: "as pessoas que são loucas o suficiente para achar que podem mudar o mundo, são as que o mudam" (não me contive). Tudo gente apaixonada o suficiente pra não olhar pra trás e ir até o fim, muitas vezes até pagando pela vida por isso.

Veja que a galera que perturba, que incomoda, que não teme o julgamento alheio foi a que melhorou suas condições de trabalho e aumentou o seu salário; aquelas mulheres bravas, "histéricas", intragáveis, foram aquelas que foram capazes de desafiar o estado das coisas e que posteriormente acabaram lhe dando liberdade de expressão, de opinião, de escolher e administrar sua própria vida. Aqueles chatos do movimento estudantil foram aqueles que melhoraram a vida de você que tinha problemas econômicos, o estado da sua biblioteca e do seu restaurante universitário. 

Beleza, nem sempre são as pessoas mais divertidas, mais leves, mais tranquilas de conviver - apesar de Gandhi parecer um doce.  Porém, elas têm um valor imenso, porque elas que fazem o mundo se movimentar. Ficar em cima do muro muda nada, ou quase nada. Impedir ou criticar muito do que essas pessoas acreditam e correm atrás, preste atenção, às vezes pode até lhe identificar com o lado opressor, porque de certa forma ficar do lado do status quo é achar que o estado das coisas vai muito bem, e a gente sabe que não vai, pra muita gente. Então por que ficar parado, por que temer a confusão?

Claro que não quero dizer que sempre escolhem os métodos certos, ou tomam as melhores decisões. Às vezes se equivocam, claro, porque errar é o risco que corre a pessoa que toma alguma atitude, que se propõe a fazer alguma coisa. Porém, têm todo o meu respeito.

Por isso, dedico o meu post de hoje a todos os chatos e chatas, os loucos e loucas, os arruaceiros e as arruaceiras, os/as radicais, gente a quem eu devo tudo de bom que usufruo agora, e que ainda irá permitir que o que tenha de melhorar, melhore. 







quarta-feira, 9 de abril de 2014
10:03 2

O que não te contaram sobre aquela viagem

Aaaaah, viajar...

Alguma coisa aconteceu nos últimos anos que viajar para o exterior se tornou algo bastante comum entre os brasileiros. E com as redes sociais, todo mundo pode visualizar isso com registros fotográficos incríveis. A intenção é compartilhar com a família e amigos esse momento tão especial. Há também quem tenha a necessidade de se afirmar perante os outros, mostrando como sua vida é maravilhosa, digna de inveja, etc e tal. 

Viajar é massa! É lúdico, construtivo, abre horizontes, enche a gente de cultura. Porém, existe um lado sombrio, cheio de nuvens de fumaça que as pessoas não costumam mencionar por aí. Tudo isso pra pegar o besta, que ficou em casa, que acha que todo mundo tem a vida melhor que a sua. 

Sensibilizada com você, que está sem poder viajar, está sem grana ou economizando pra uma outra coisa mais essencial, resolvi, então, compartilhar experiências não só minhas, mas também de diversas pessoas conhecidas (sem mencionar nomes, claro) que irão confortar o seu coração. 

É, minha gente... Viagens podem ser muito divertidas, mas também podem ser:

1. Destruidoras de relacionamentos

Viagens podem destruir namoros, amizades; podem, sim. No primeiro caso, aqueles namoros cheios de paixão que acabaram de começar podem ser testados nesse momento em que vocês não poderão se desgrudar. A falta de intimidade não só poderá te encher de gazes, mas poderá fazer com que você perceba que talvez aquela pessoa não seja tão boa companhia assim. O seu novo parceiro pode ser um ladrão de souvenirs, um unha de fome pra comprar comida, um sujismundo, um frescurento filhinho da mamãe, ou simplesmente pode ser uma pessoa de ótimo coração e comportamento exemplar, mas por algum motivo qualquer coisa que faz te dá uma vontadezinha de agredi-lo verbal e fisicamente. Aquele/a amigo/a querido/a também pode ser tudo isso, e mais, essa amizade pode dar espaço ao maior conflito existente entre companheiros de viagem: o conflito hiperativos x preguiçosos. 

De um lado, os andarilhos incansáveis: passam horas andando, tiram fotos sem parar, comem num fast-food qualquer, madrugam em festas, e ainda querem acordar 7 horas da manhã pra prosseguir os passeios turísticos. De outro lado, o lado o qual me identifico (não necessariamente o melhor lado), a galera do turismo light, do turismo da paz, que não faz questão de conhecer tudo de uma vez. Gosta de sentar num banquinho, admirar a paisagem, comer uma comida típica, dormir mais de 8 horas por dia. Quando esses perfis se reúnem podem gerar brigas, desgastes. Cada um que reclame do outro defendendo a sua própria maneira de fazer turismo. Amizades são abaladas, se tiver mais gente num grupo, lados se dividem, farpas são trocadas. O negócio é torcer pra tudo voltar ao normal quando chegarem em casa. 

2. Cansativas, muito cansativas

Sabe aquela foto alegre, deitada na grama, com aquele óculos Ray-Ban fashion comprado no Duty Free? Pode ter sido estrategicamente forjada para enganar você, bestalhão. Aquela alegria, aquele momento de descanso, contemplado a natureza e a arquitetura esplêndida da cidade estrangeira pode não ter passado de um intervalo de 20 segundos apenas para tirar essa foto super divertida, que será seguida de uma jornada cansativa, de longas caminhadas, às vezes corridas para o ponto turístico mais próximo. Aquele museu bacana, cheios de obras famosas de pintores renomados, será utilizado só para ponto de descanso para ir ao banheiro, encher a garrafinha com água da pia, e para tirar um cochilo em algum banquinho ou escadaria. 

3. Superestimadas

Aquela cidade linda, adequada para um pertencente da elite brasileira, digna de cenário para uma novela de Manoel Carlos, nem é tão legal assim. Aquele prato típico maravilhoso? Era melhor o do restaurante que fica a poucos metros da sua casa no Brasil. Aquela obra de arte famosérrima? É pequena demais, mal deu pra chegar perto dela com toda aquela multidão a cercando. Aquela segurança toda de país desenvolvido? Ah, meu amigo, vacilou, e cadê a carteira no bolso? Cadê a bolsa, depois daquele cochilo no trem? De um tirinho na cabeça você pode até ter se livrado, agora de uma mãozinha sapeca, não estás livre, colega, em lugar algum deste mundo. 

Você pode ter deixado de viver uma aventura incrível, mas também pode ter se livrado de uma grande roubada. Acorde com um sorriso no rosto pra ir à faculdade ou ao trabalho, coma o seu inhame com carne de sol e/ou ovo, e/ou queijo de coalho com satisfação, poste uma foto com esse prato com cara de “nham, nham” no Instagram e mostre que a vida também pode ser gostosa na rotina. 




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
16:38 10

Novas manifestações da classe média brasileira


A ampla difusão da TV por assinatura, o acesso à Internet, a baixa nos preços das passagens aéreas, o acesso a bens materiais de alta tecnologia e também ao ensino superior modificaram substancialmente o perfil da classe média alta brasileira. A turma tem ficado cada vez mais enjoadinha e tem compartilhado de manifestações de comportamento bem parecidas. Essa parada de globalização realmente tem o poder de padronizar as pessoas; e andando por aí, clicando por aqui, você pode encontrar alguns perfis de gente com atitudes e estilos muito semelhantes. Neste novo post resolvi reunir algumas dessas figurinhas que você facilmente pode encontrar por aí. 


Quase cidadania europeia

O brasileiro "cidadão europeu" está chateadíssimo com essa história de estar todo mundo viajando para o exterior agora. Há pouco mais de 10 anos viajar para o exterior era prerrogativa sua e de poucos. Agora toda essa ralé, sem sofisticação, com seus pacotes CVC podem usufruir daquilo que antes só ele podia conhecer. Sempre fazendo questão de esclarecer que não se encaixa na categoria "turista", porque a alcunha que lhes atribuí já diz, né? Ele é praticamente um cidadão europeu. Para essa pessoa, o tal do turista é uma figura repugnante. Turistar é coisa de povinho, com suas roupas de frio cafonas emprestadas pelo parente rico. Ele faz questão de mostrar que conhece profundamente todas as capitais e cidades glam europeias. Vai contar uma historinha, tem que inserir os nomes das ruas, ditas com o sotaque estrangeiro (francês, de preferência), para mostrar o quanto está inserido naquele lugar. Dão de vez em quando uma de Luciana Gimenes, e jogam expressões estrangeiras totalmente desnecessárias no meio das frases: "Gente, eu estava brincando! Foi apenas uma blague".

Pirei nas tecnologias

Este aqui é o desesperado por novas tecnologias. Passa o ano comendo mal, muquiranando para todas as coisas mais básicas da vida, mas tem seu Iphone de última geração e o tal do Macbook Air que equivale ao preço de pelo menos três notebooks razoáveis ("compensa, não trava"). O seu lugar é, claro, o paraíso do consumo, os Estados Unidos. Todo ano tem passagem obrigatória nos States. Caso contrário, é o mala que perturba viagens alheias, incomodando a tia da amiga da namorada, que ele soube que viaja em breve, fazendo as encomendas mais inconvenientes. Adora camisetas outdoors com o nome da marca famosa explícito, usa tênis esportivo chamativo caro para ir a qualquer lugar e tem o dedo podre pra escolher modelo de óculos e relógio. Este, de preferência o mais feio e grande da Michael Kors.

O/A VIP

No falecido Orkut este estaria em comunidades como "Sua inveja faz a minha fama", ou, "Deus me disse: desce e arrasa". Sua autoestima baixa e espírito invejoso é compensada na busca por provocar nos outros o mesmo sentimento. Por isso, seu objetivo é mostrar que é melhor que todo mundo, e que tem uma vida também muito mais bacana e divertida. Assim, é o cara que "não se mistura" e só vai para festas "selecionadas" ou com espaços selecionados. Não pode deixar de registrar tudo amplamente nas redes sociais, e se puder pôr também em alguma coluna social, melhor ainda. Como quem procura, acha, são pessoas que vivem reclamando de sofrer de inveja dos amigos ou amigas. Um sofrimento talvez um tanto gostoso de se sentir... Ah, e os homens dessa categoria costumam acusar todas as mulheres de serem interesseiras. Também, né, amigo, quando o único valor que você demonstra é o dinheiro, não há como atrair gente diferente.


Fotógrafo/a e fashionista



Com a disseminação das redes sociais, todo mundo tem seu espaço para ditar tendência. O fotolog foi responsável pelo boom da fotografia no Brasil, e até hoje essa mania se perpetua no Flickr e no Instagram. Muita gente acabou fazendo fama com fotografias lindas e conceituais. Só que a coisa foi se pasteurizando, e já dá pra encontrar um padrão nessa galera. Principalmente, entre as garotas. Antes de fazer o blog, prestei mais atenção no que faziam as blogueiras bem sucedidas, e observei que boa parte delas apresentavam características semelhantes (vou até imitar depois, pra ver se dá sorte). Um blog de sucesso tem que ter, claro, fotos, muitas fotos (tô pecando nisso). E algumas que você pode ver pelo menos em um em cada três blogs são: fotos com gato preto; fotos com frutas vermelhas como amora, cereja e morango; fotos mostrando a cor do esmalte; fotos na Starbucks. Livro favorito: "Alice no país das maravilhas". Filme: "O fabuloso destino de Amélie Poulain" ou "500 dias com ela". Um lugar: Paris, Londres ou Nova Iorque. Ícone da moda: Audrey Hepburn, em "Bonequinha de Luxo". O que não pode faltar na bolsa: batom da Mac.

Esqueci de mais algum? Pode acrescentar nos comentários. :)


























segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014
13:56 3

Gula: um pecado subestimado

As leis cristãs nos ensinam que existem sete pecados capitais: a gula, a avareza, a luxúria, a ira, a inveja, a preguiça e a vaidade (ou orgulho). A vida já me ensinou que não existe um que possa ser tão pior que o outro. Quaisquer deles em grandes proporções podem trazer resultados trágicos.

"Qual é o seu pecado?", alguém da mesa pergunta. A resposta é quase sempre a mesma. A inveja é negada por todos. A luxúria e a ira geralmente são evocadas pelos homens que querem parecer mais machos; a vaidade ou orgulho, pela galera da alta autoestima excessiva. Enquanto a gula e a preguiça são os pecados mais admitidos e socialmente aceitos.

Aí eu digo que meu grande pecado é a gula. Alguém sustenta um "não valeu". Porque há quem ache que simplesmente ter fome e ter vontade de comer já configura o pecado. Sempre tem uma magrelita que se diz gulosa. Você faz o teste da pizza e a danadinha come duas ou três fatias, e já se diz satisfeita. Faz-me rir! Vou dizer pra você o que é uma pessoa gulosa.

Uma pessoa gulosa não consegue respeitar tira-gostos. Se você tem intimidade com o grupo, já senta do lado do patê e da torrada e vai metendo bala. Se não tem intimidade, tudo que está ao seu redor perde o interesse. Você não se concentra mais nas pessoas e no que elas estão dizendo, você pensa apenas quantos segundos ou minutos tem que aguardar para pegar o próximo salgadinho sem parecer uma desesperada. A conversa começa a perder o ritmo. E a coisa só fica pior quando você percebe que existe outra pessoa gulosa na roda. Começa um confronto silencioso, "pqp, esse safado tá comendo muito rápido, vai acabar tudo". Aí você apressa o passo, tentando não perder a elegância, que esse escroto não tem pudor algum em perder. 

Dividir comida também é um problema. Peraí, deixa eu explicar. O egoísmo não chega a tanto! No meu caso, não tenho problema em dividir a comida que está dentro de uma panela, e cada um pôr no seu pratinho o que tem vontade de comer. O problema é quando você faz o seu prato com uma quantidade mediana de comida, cria a expectativa de comer tudo que ali está, e vem algum folgado roubar o que há de melhor no recipiente. Situação pior: quando você guarda, por exemplo, aquele sushi mais gostoso pro final, e vem uma pessoa cheia da intimidade dar uma roubadinha. Dá logo uma pontada no coração. A boca fica salivando com a expectativa da mordida perdida. 

E quando querem um pedaço de um bocadinho de comida, como uma trufa? A mordida extingue logo 40% da bolinha. Prejuízo para a trufa e para o bolso. Pague logo metade dessa danada, camarada! 

O momento da divisão em fatias de alguma comida também é um conflito. Se você tem irmãos selvagens, pior ainda. A partilha de uma pequena torta ou de uma pizza, pode gerar grandes discussões. "Ei, o seu pedaço tá bem maior que o meu!". 

É feio, muito feio. Pecadinho egoísta pra caramba. Juro que estou tentando me tratar, pra me transformar apenas numa comiloninha, e não numa gulosa.

Por outro lado, os pecados também têm o seu caráter transgressor; e mais uma vez a questão de gênero aparece. Ser uma mulher comilona também é ser passível de julgamentos machistas. Um homem comilão demonstra sua virilidade, voracidade, quase um reflexo que é comedor em outro níveis. Ele é um selvagem, um homem das cavernas. Precisa comer muito, para fazer todas aquelas atividades que exigem do seu físico de macho (eu digo: RUM, até parece, trabalhadorzão!). Já as mulheres têm que comer pouco, para deixar comida suficiente para o seu macho ou para a prole. Devem demonstrar também que é alguém que não dá muitas despesas, e claro, não vai engordar muito.

É assim que o patriarcado interfere até no seu apetite! Tá de brincadeira, né? É por isso que não só se revoluciona na luxúria, há revolução na gula também!

Então, não subestime a gula no seu poder de destruição social; nem no de revolução. Pode pegar o pote de Nutella e detonar, amiga. Só não esqueça de deixar umas colherzinhas pra turma. 





quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
11:14 6

“Não ande com brasileiros”


Em 2008, resolvi me aventurar num intercâmbio na Europa. A cidade escolhida: Lyon, França.

Antes de embarcar, além de todos os preparativos formais, todas as coisinhas para listar e não esquecer de pôr na mala; várias pessoas vieram me fornecer algumas sugestões, solicitadas e não solicitadas. O que vestir, o que não levar na mala, o que comprar aqui, o que comprar lá, alerta para o mau humor francês, etc, etc.

Sem dúvida, um ponto em comum entre as diversas recomendações era o tal de “não ande com brasileiros”. Era a sugestão dada geralmente por quem nunca tinha tido a experiência de fazer um intercâmbio, mas que conhecia alguém que tinha ido e que tinha feito a grande bobagem de interagir demasiadamente com brasileiros.

É uma preocupação compreensível, e por isso muita gente viaja com isso na cabeça. Fazer intercâmbio é o momento de você conhecer uma cultura totalmente diferente da sua, você precisa praticar o idioma estrangeiro e se tornar fluente, precisa se inserir no cotidiano daquele contexto. Enfim, são coisas que o convívio com pessoas da mesma nacionalidade podem interferir para uma inserção mais profunda.

Cheguei lá, com um grupo de brasileiros da mesma Universidade, e pensei que até seria bom me distanciar um pouco deles quando estivesse totalmente estabelecida. Só que além destes, dezenas de outros brasileiros de outros estados e regiões também estavam chegando por lá. E aí, não teve mais jeito, passei a conviver com todos, e fui totalmente conquistada.

Não me culpem, os brasileiros e as brasileiras são irresistíveis. E digo o porquê.

Porque no meio daquela calmaria francesa, quem rompia o silêncio com gargalhadas gostosas e altas, só podia ser o povo do Brasil. Aliás, percebemos que somos bons nisso de dar risadas. E que somos um tanto escandalosos também, porque vez ou outra tinha quem viesse reclamar do barulho.

Começou a nevar. Com quem partilhar tamanha emoção? Com os amigos brasileiros, claro. Deitada na minha caminha, bem displicente, recebi um monte de mensagens: "Mariana, olha a janela!", ou, "Neveeeee!!!". Depois quando perdia a graça tanto branco e tanto frio, também sentávamos e nos lamentávamos com saudade do sol.

Se não andasse com brasileiros, eu iria perder a oportunidade de falar várias atrocidades em português na cara de algum francês chato, ou até elogiar descaradamente um francês gatinho sentado no assento da frente no metrô. E ainda fazendo a atriz, com expressão de quem estava falando sobre o tempo.

E mais, como poderia resistir a três estudantes de moda do Ceará, com aquele sotaquinho de Fortaleza, meio Norte, meio Nordeste, e assim... como posso dizer pra "tchi"... alegres, coloridas e criativas. Dava logo vontade de dizer, "vamos ser amigas?".

Que graça teria se não tivesse os cariocas chamando atenção na pista de dança, com seu estilo de dançar único, desafiando minha falta de remelexo no quadril e deixando as francesinhas (e outras gringas) enlouquecidas? Como eu teria contato direto com fofocas sobre artistas globais e outras celebridades, verificadas in loco!? Babados fortíssimos e exclusivos.

E os paulistas? Tive oportunidade de conhecer uma variedade de sotaques que passa pelos VJs da MTV, vai pra comunidade italiana e termina no linguajar dos manos. Uma puta vida difícil que eles levavam na capital paulista; três horas ou mais pra pegar a "condução" pra chegar no "trampo" ou na "fefelesh" (FFLCH). Sempre gargalhando na cara de quem precisava acordar "cedo" no outro dia, porque cedo não é 7 ou 8 horas da manhã; um verdadeiro metropolitano só reclama quando tem que levantar pelo menos às 4 horas!

Não poderia deixar de falar dos vizinhos pernambucanos. De vez em quando tratavam nós paraibanos como um irmão mais velho pentelhando o caçula. Enchiam o saco dizendo que éramos pequenos e inaptos, mas no fundo nos amavam e se identificavam conosco. Coisa mais linda aquele povo do Recife, com suas camisas do Sport, do Náutico e do Santa Cruz. Maior orgulho do mundo de onde vieram, e com razão. Sempre fazíamos uma união pró-Nordeste, pra desafiar o novo amiguinho que queria rir do nosso sotaque. No final, já estávamos pelo menos a contagiar os artigos antes de nomes próprios, e tinha quem chegasse a soltar um "oxe".

Sem falar nas pessoas de outros lugares do país: as sulistas lindas e bacanas, com suas expressões diferentes; os mineiros gentis com o sotaque mais fofinho do mundo; fora, claro, meus queridíssimos conterrâneos, que foram verdadeiros brothers and sisters.

Aí foi isso, fui conhecer o estrangeiro, e acabei também conhecendo o Brasil. Não, não, não montei nenhuma comunidade brasileira, nem fiz parte de um gueto. Aprendi francês, comi escargot, aderi à rabugentice para momentos adequados. Agora o melhor de tudo: fiz muitos amigos. Da França, do mundo todo...  porém, não vou mentir, os mais especiais moram aqui do lado e têm o lugar mais especial no meu coração.